Alice, as memórias e o tesouro da vovó

A vovó Ana sempre falava que um dia ela partiria em uma longa viagem e que, apesar de termos passeado por muitos lugares juntas (como era bom!), nesta, ela não poderia me levar. Ela dizia, também, que o final dessa viagem dependeria de como ela tinha vivido a vida dela. Se tivesse sido uma boa pessoa, encontraria um belo pássaro que a levaria para um lugar muito bom. Mas, se não conseguisse ser boa o suficiente, encontraria um dragão! Credo, não gosto nem de imaginar.

Mas até a partida dela no fim do ano passado, tenho certeza de que ela tenha chegado no lugar bom.

A vovó prometeu que, quando fosse, deixaria um mapa do tesouro para mim na casa dela. E, finalmente, nesse fim de semana, o papai, a mamãe e meus irmãos iríamos todos para lá. Eu não via a hora!

Depois de uma viagem que nem era muito longa, mas que a ansiedade tinha esticado mais do que eu gostaria, chegamos. A mamãe me mostrou um envelope com meu nome na cristaleira da vovó; eu tinha certeza que era o mapa.

Abri rápido, mas não tanto, pois não queria rasgar o que estivesse dentro. E lá estava: um mapa da própria casa da vovó, com os números um, dois e três em lugares diferentes da casa, ligados por uma linha tracejada, e, no final, um xis. Parece que ela queria que eu seguisse a ordem antes de encontrar o tesouro!

Comecei pelo número 1 do mapa, que estava sobre uma penteadeira no retângulo que indicava o quarto dela. Corri até lá e em cima da penteadeira estava o objeto sobre um papel com o número 1: uma caixinha de música com uma bailarina que dançava. Imediatamente me lembrei dos invernos ao pé da lareira, dando corda na caixinha e comendo pipoca caramelizada. Vovó comia (e me dava) muitos doces nessa época!

Dei corda e a melodia que eu conhecia tão bem começou a tocar. O som metálico preencheu o quarto e, de repente, da caixinha saiu uma luz tão forte que tive que fechar os olhos. Quando os consegui abrir novamente, não estava mais no quarto da vovó Ana, mas no meio de um bosque, e com uma flauta doce nas mãos.

Uma fila de grandes formigas (eram quase do tamanho do meu pé!) passava ao meu lado, carregando para o meio das árvores todo tipo de guloseimas: balas, pedaços de bolo, tortas, pudins, brigadeiros, beijinhos, cajuzinhos, pés de moleque, pés de moça, cookies, casadinhos, bombinhas de chocolate… Ah, e tinha pipoca caramelizada, também!

Nossa, que vontade me deu de pegar algo dali para comer! Mas, primeiro, não eram meus; segundo, sabe-se lá de onde vinham, e; terceiro, minha avó tinha parado de comer doces e me ensinou a controlar meus desejos. Esse monte de doce com certeza ia acabar em uma grande dor de barriga!

Resolvi então apenas seguir a fila de formigas para ver onde levavam tanta comida. Pensei que seria para um formigueiro gigante, para a rainha, mas eu estava errada: depois de passarmos as árvores, sobre uma grande pilha de doces, à sombra de uma grande aroeira, estava um rato gordo que não parava de comer.

Aquilo me espantou:

— Credo! Um ratão!

E ele respondeu:

— Credo! Uma menina enxerida! O que você está fazendo aqui? Essa comida é minha, viu? Nem pense em pegar nada!

— Eu nem quero, seu mal-educado! Mas você vai acabar passando mal comendo tanta porcaria.

O rato respondeu apenas enfiando um pedação de bolo na boca.

Eu estava chateada com aquela grosseria, mas não queria que nada de mal acontecesse com o rato. Foi então que me lembrei de certa história em que ratos eram encantados por uma canção. Nesse instante, a flauta começou a vibrar em minha mão: com certeza não era uma flauta comum!

Mesmo que nunca tivesse tocado uma flauta doce, levei-a à boca e fui capaz de tocá-la. Uma melodia preencheu o ar e eu podia ver notas musicais coloridas saírem do instrumento e voarem ondulando até o rato. O animal foi comendo cada vez mais devagar, até que parou por completo e ficou apenas balançando de um lado para o outro, como que movido pela canção.

Poucos segundos depois que o rato parou de comer, quase morri de susto: uma cobra enorme desceu da árvore e abocanhou o bicho inteiro! Deixei a flauta cair e ela me disse:

— Ora, menina, por que você não deixou o ratinho continuar comendo? — E, no mesmo instante, disparou rastejando pela pilha de doces abaixo, na minha direção.

Saí correndo e sempre que eu olhava para trás, lá estava a cobra. Teria a flauta algum poder sobre ela? Mas eu a tinha deixado cair! E agora?

Tive a ideia de saltar sobre a fila de formigas, que continuava levando coisas para o monte de comidas. E deu certo: a cobra se embolou em alguns dos insetos antes de conseguir me perseguir de novo. Assim que ela veio, saltei de volta sobre a fila, o que a atrasou outra vez, até que cheguei na flauta.

Novamente, o instrumento musical vibrava. Eu tinha certeza de que a mágica da flauta me ajudaria, então comecei a tocá-la.

A cobra ficou paralisada, olhando para mim. Do céu veio uma luz tão intensa, que não consegui manter os olhos abertos. Apenas depois de algum tempo os consegui abrir, mas não tinha mais nada ali: era tudo branco. Olhei para os lados, até que vi algo como um livro flutuando perto de mim. Fui até o objeto e o tomei nas mãos.

Era um álbum de fotografias! Tinha fotos da família toda, da época em que a vovó começou a ter problemas de saúde por comer doces demais. Era engraçado: no começo do álbum, ela estava mais gordinha e, no final, depois de vencer o vício pelos doces, magrinha, e aparecia em bem mais fotos brincando com a gente. Ela tinha ficado bem mais disposta!

Quando me dei conta, estava de volta no quarto da vovó com o álbum e a caixinha de música nas mãos. O mapa tinha ficado ali na penteadeira. Era hora de ir atrás do número dois, que estava pintado na copa, no buffet (é só um nome bonito para um armariozinho baixo, com algumas portas, que a gente pode usar para colocar coisas em cima).

Deixei a caixinha de música na cristaleira e corri até lá. Encontrei uma camiseta da vovó onde estava escrito “Vovó de uma princesa”. Ela ganhou, não lembro se foi da mamãe, na época em que eu nasci. Peguei a peça de roupa e, como a caixinha de música, ela começou a brilhar, ofuscando minha vista.

Antes mesmo de poder abrir os olhos, senti meus ombros e cabeça ficarem pesados. Também não conseguia mais me mexer direito. Finalmente, pude abrir os olhos e percebi que minha visão estava bem limitada; parece que eu via por uma fresta. Era como se eu vestisse uma roupa dura e fria. Consegui mover a cabeça o suficiente para ver minhas mãos e pés: estavam cobertos por algum metal dourado. Até onde consegui enxergar, todo o meu corpo estava coberto por aquilo.

De repente, ouvi uma voz rouca um pouco abafada pelo que quer que estivesse cobrindo minha cabeça:

— Quem é você e como chegou aqui? Você está invadindo território goblin!

Eu sequer sabia onde estava para responder à pergunta… Parecia uma planície e ali perto havia algumas casinhas de sapé. No meio delas, eu via outro álbum como o anterior, rodeado por uma luz protetora.

— Não sei como cheguei aqui, mas vou embora rapidinho. Deixe apenas eu caminhar até ali. — Eu tinha que fazer uma força tremenda para andar, mas queria chegar no álbum o quanto antes para sair desse lugar.

— Espere aí, você tem que pagar o pedágio, oras!

— Mas que pedágio?

— Essa armadura de ouro serve.

Armadura? Então era isso que eu estava vestindo… Mas era minha e devia ser bem valiosa! Respondi:

— De jeito nenhum. É minha e aquilo lá também é meu — eu disse apontando para o álbum, enquanto começava a andar para o meio da vila.

O goblin tentava me empurrar, mas ele era muito pequeno. Mesmo com dificuldade, eu avançava pouco a pouco, até que a criatura deu um guincho e muitos outros goblins começaram a sair das casinhas.

Em um instante ficou impossível avançar: os goblins estavam na minha frente e pendurados por todos os lados da armadura, exceto pelo elmo, que não alcançavam por serem mais baixos que eu.

Tive que desistir da armadura. Por dentro dela, passei meu braço para tirar o elmo. Depois, abri os fechos que ligavam a parte da frente do tronco na de trás (ainda pelo buraco do pescoço), e então as placas caíram em cima de alguns goblins. Tirando minhas pernas de dentro da armadura, dei um salto para uma das placas e, depois, para o chão, correndo logo em seguida para o álbum, com alguns goblins atrás de mim.

Assim que toquei nele, a luz forte apareceu de novo e, de repente, lá estava eu de volta à copa da vovó com a camiseta e o álbum nas mãos. Ufa!

Dessa vez, as fotos começavam com a vovó usando roupas chiques, maquiagem, brincos, colares, pulseiras, bolsas… todo tipo de acessórios. Ela estava sempre rodeada de pessoas vestidas como ela e raramente aparecia alguém da família. Algumas fotos depois, as roupas dela foram ficando mais simples e as tias e os tios, a mamãe e o papai já estavam em mais fotos. Mais para o fim, era neto para todo lado nas fotos com a vovó (incluindo a mim) e, na última, éramos eu e ela, que vestia aquela camiseta com o escrito “Vovó de uma princesa”. Parece que com o tempo ela foi se tornando bem mais divertida e carinhosa!

Bem, era hora do número três, que estava desenhado na sala, sobre a mesinha de centro. Fui até lá, perto de onde antigamente havia uma TV, e encontrei uma pulseirinha da vovó. Coloquei-a em volta do meu pulso e, como eu já esperava, a luz que saiu dela me fez fechar os olhos.

Ao abri-los, eu estava em uma terra seca e tinha um escudo preso ao meu braço direito. O chão era todo rachado e eu via uma alta montanha. Parecia haver alguém lá no topo! Quem seria?

Coloquei-me a caminho do monte enquanto reparava melhor no equipamento que estava comigo: o escudo tinha, na frente, um fundo azul com uma fênix branca, de asas abertas, no centro. Era muito bonito!

De repente, do meio daquela terra craquelada surgiu uma poltrona bem de frente para uma TV. Parecia com o aparelho que a vovó teve há muito tempo: era uma caixa de madeira com uma tela, e a imagem não era tão boa quanto as de hoje. Estava passando um desenho antigo, mas muito colorido. Apoiei o escudo na poltrona e me sentei confortavelmente, prestando atenção nas cenas meio sem sentido que iam aparecendo. De tempos em tempos, porém, meu olhar escapava para o menino no topo da montanha e eu sentia seu chamado para que eu fosse até lá.

Não sei quanto tempo se passou. Talvez meia ou uma hora? Fiquei um bom tempo ali, distraída, com aquele incômodo de que eu devia seguir em frente, mas sem forças para escapar do conforto da poltrona e de ficar assistindo TV. Finalmente juntei todas as energias que consegui, peguei o escudo e parti em direção à montanha, atravessando aquela terra desolada.

Mais à frente, porém, outra coisa saiu do meio da terra: parecia algo como um altar branco e, voando um palmo acima dele, algum tipo de aparelho do tamanho de um livro de bolso. Quando cheguei mais perto, vi que era um celular de última geração! Nossa, o que aquilo estava fazendo ali? Larguei o escudo e peguei o aparelho só para dar uma olhadinha nas horas: era pouco depois do meio-dia; mas acabei caindo na tentação de xeretar pelos aplicativos e joguinhos. De tempos em tempos, o menino na montanha me atraía a atenção, e eu me sentia culpada por não estar indo ao seu encontro. Já eram umas duas da tarde quando tive coragem de largar essa outra distração.

Olhei para o lado de onde eu tinha vindo e, ao longe, via algo muito grande, voando. Ainda não tinha certeza se estava vindo na minha direção, porém, de qualquer forma, era melhor correr para a montanha. E se aquilo estivesse indo para o lado do menino?

Tentando impedir minha corrida, do chão começaram a sair brinquedos de todos os tipos: desde coisas pequenas (bolinhas de gude, carrinhos, pratinhos, xícarazinhas) para eu tropeçar, passando pelas bonecas mais lindas, para me distrair, até os maiores bichos de pelúcia que eu já vi, para desviar meu caminho.

Aquela coisa enorme voando continuava se aproximando e, como eu já estava perto da montanha, já não dava para saber se ele queria atacar a mim ou ao menino, mas eu sentia no meu coração que precisava defendê-lo.

Depois de muito saltar, desviar-me e resistir à tentação de parar para ver os brinquedos que apareciam, comecei a subir a montanha. Finalmente consegui ver o que se aproximava: um dragão vermelho! E parecia furioso, pois começou a soprar fogo na TV e na poltrona que tinham ficado para trás, no altar e no celular e em tudo mais que tinha aparecido para me distrair. Eu não tinha muito tempo e correr com o escudo não era nada fácil.

Ao chegar ao topo, vi o garoto vestido de branco. Ele parecia calmo apesar da ameaça que agora já sobrevoava a base da montanha, ainda soprando fogo para todos os lados. Era uma questão de segundos até que estivesse sobre nós!

Eu estava a poucos metros do menino quando o fogo do dragão nos alcançou. Ergui o escudo à minha frente e uma barreira branca se formou, segurando as chamas. Enquanto defendia, continuei dando passos na direção do menino, até que fiquei bem próxima e a barreira cobriu a nós dois completamente. O dragão soprou, bufou, cuspiu, fez de tudo o que podia com o fogo, mas apenas queimava a montanha; eu e o menino de branco estávamos a salvo.

Fiquei com muito medo quando o bicho enorme pousou bem na nossa frente. Ele se virou bem rápido e deu um golpe com sua cauda. Ainda bem que a barreira também aguentou o ataque! Ufa!

Com um guincho e um sopro de fogo para o alto, por fim o dragão desistiu e foi embora. Pude abaixar o escudo e me virei para o menino, que disse:

— Obrigado por me proteger. Fico feliz por você ter feito bom uso do escudo que eu fiz para você. E também da flauta e da armadura. Antes que você parta, queria apenas que soubesse que sua avó encontrou o belo pássaro, que pintei no seu escudo. Desejo que, ao final de sua viagem, menina, também encontre o belo pássaro. Conte com meus presentes para ajudá-la no caminho.

Então, de um arbusto, o menino tirou outro álbum de fotos, que me entregou. Uma luz forte saiu dele e ofuscou minha vista outra vez.

Quando consegui enxergar de novo, alguns momentos depois, estava de volta à sala da vovó com o álbum e a pulserinha nas mãos. Sentei rápido no sofá: queria ver as fotos! Nas primeiras, lá estava a vovó toda cheia de roupas chiques e acessórios de novo, nos mais diversos lugares: lojas de lustres, lojas de cristais, cafés chiques pela Europa, lojas de departamentos gigantes nos Estados Unidos… Ainda bem que, algumas fotos depois, as roupas dela foram se tornando mais simples, a família começava a aparecer com ela mais vezes, o cenário era geralmente a casa dela, um lugar pertinho ou as casas dos familiares e, finalmente, lá estava ela me segurando quando eu ainda era bebê. Acho que ela foi percebendo que dar atenção àquelas coisas chiques era bobagem, e isso abriu espaço na agenda dela para nós. Que bom!

Era hora de procurar o xis do mapa: estava novamente no quarto da vovó, mas agora desenhado sobre o guarda-roupas dela. Corri até lá e o abri. Não havia roupa alguma, porém, no chão, vi uma pasta para fotos, pelo que a capa indicava. Era enorme! Deviam caber umas 500 ali. Será que ela ainda teria tudo isso de fotos dela para eu ver?

Quando abri a pasta, entretanto, havia um bilhete, onde estava escrito somente:

PARA NOSSOS MELHORES MOMENTOS.

Não havia uma única foto; apenas espaço para, talvez, umas 1000 fotos. Isso, talvez, fosse o número total de fotos que eu agora tinha com os três álbuns que conquistei. Mas eu não colaria todas elas ali. Ia pegar somente as melhores fases da vovó (eu poderia sempre me lembrar das lições nas outras fotos vendo os álbuns menores), e preencheria o restante com mensagens, papeis e desenhos meus para deixar tudo bem bonito.

A vovó Ana me ensinou muito e estaria sempre no meu coração. E dali em diante eu andaria com os pés no chão, mas com os olhos no céu, tentando ver se ela passaria montada em um belo pássaro branco.

FIM


Lucas Dias Palhão Mendes, 2022

lucaspalhao.wordpress.com

Direitos de Cópia
Alice, as memórias e o tesouro da vovó, por Lucas Dias Palhão Mendes. Todos os direitos reservados. © 2022 por Lucas Dias Palhão Mendes, Brasil. Esse documento é protegido por direitos de cópia. Nenhuma parte deste documento pode ser reproduzida em qualquer meio sem a permissão escrita do autor.


Curiosidades

  • No planejamento da escrita, senti que seria um conto mais longo e não tive oportunidade de “testá-lo” contando para as crianças primeiro.
  • Acho que foi o conto em que mais inseri elementos religiosos até agora, incluindo a vida eterna, pecados e a Divina Providência.

Em breve, versão revisada também disponível em PDF e em diversas plataformas de distribuição e venda de ebooks (não trabalho mais com a Amazon).


Pesquisa


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