Maria, as estrelas e a salamandra

2a. edição

— Maria, desligue o fogo da panela de arroz, por favor — pediu a mãe, que preparava a salada.

— Mas, mamãe, eu tenho medo!

Depois que um papel-toalha pegou fogo acidentalmente na semana anterior e saiu voando pela cozinha, Maria começou a ter medo de fogo. Nada de grave aconteceu: o papel pousou no chão e sua mãe apagou o fogo batendo com uma vassoura. Mesmo assim, a menina ficou assutada.

— Ai, filha, eu tinha esquecido. Não precisa ter medo; eu apago. O susto está muito recente, né?

Maria sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria que enfrentar seu medo. Por enquanto, se alegrava por poder aproveitar mais uma referição com a mamãe e o papai ao som das ondas quebrando na praia não muito ditante dali.

Depois de comer, Maria ajudou em algumas tarefas da casa. Juntou em uma pilha na sala, com seu pai, alguns jornais que tinham conseguido. Eram para embalar as cerâmicas que vendiam. Então, a família se sentou novamente para comer frutas e, finalmente, o sol começava a baixar.

— Mamãe, posso ir dar uma voltinha na praia? — O lugar não costumava ter ninguém e Maria sabia o quanto o mar era perigoso. Além disso, sua mãe podia vê-la ao longo de todo o trajeto pela janela e, por isso, a deixava ir. Normalmente, não é seguro uma criança estar em uma praia sozinha!

— Claro, filha. Não demore.

Maria saiu e rumou, apressada, para a praia na esperança de encontrar algumas estrelas do mar que pudesse atirar de volta na água, como de costume. Ao longe, no porto, avistava um navio imenso, o maior que já tinha visto, atracando. Devia ser um petroleiro, como seu pai lhe havia mostrado em um livro!

Um caminhão dos bombeiros estava de prontidão no porto caso fosse necessário; não se pode dar chance para um vazamento de óleo no mar.

Eis que, no céu de nuvens alaranjadas, Maria viu não apenas uma, nem duas, nem três, mas quatro estrelas cadentes.

— Uau! Será que eu ganho quatro desejos? Primeiro, eu queria proteção para mim e para meus pais e irmãos (que ainda vão chegar, né?); depois, eu desejo perder o medo de fogo (em nem consigo mais ajudar a mamãe a cozinhar…); terceiro, eu queria voar (sei que gente não tem asa, mas não custa tentar); e, por último, que tal um pouquinho de emoção? Tudo anda tão calmo ultimamente…

Mal sabia a menina o que a aguardava. Acabava de falar os desejos para si mesma e uma bola de fogo surgiu no céu, ultrapassando as quatro estrelas na queda e terminando em uma explosão no centro da cidade. Logo depois, três das estrelas caíram no mar, perto da praia, e a última delas bateu na areia, não muito longe de Maria.

Tão logo caíram as três estrelas, três raios de luz saíram da água e foram na direção da explosão.

Maria correu até a estrela que tinha caído na areia. De perto, no meio da areia chamuscada, viu algo como uma pedra azul com cinco pontas, em que havia sido entalhada a figura de uma fadinha de braços cruzados, entre eles uma varinha com ponta de estrela.

Tentou pegar a pedra, mas estava muito quente. Foi até o mar e, com as mãos em concha, tentou trazer o máximo de água. Não chegou com mais que algumas gotas, porém aliadas ao tempo passado desde a queda, foram suficientes para esfriá-la ao ponto de poder ser segurada nas mãos, além de ter mudado a cor para rosa nos pontos em que as gotas caíram.

Maria, então, correu com o objeto para o mar, onde gentilmente o depositou. Como antes tinha visto, um facho de luz saiu do mar, do ponto onde estava a pedra. Desta vez, entretanto, não foi para a cidade, mas para seu lado, emitindo um clarão branco em seu pouso.

Quando pôde enxergar, ali havia uma fada vestida de azul e de asas brancas, empunhando a varinha, lentamente voando para cima e para baixo, que disse:

— Obrigada por me colocar na água. Bendita sejas, menina.

Maria enrubesceu, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, a fada continuou:

— Sou a estrela Josiane. Eu e minhas três irmãs precisamos da ajuda de alguém como tu.

A menina interrompeu:

— C-claro!

— Fomos varridas do céu para longe de nossas outras oito irmãs pela salamandra, que também desceu a este mundo. Agora, a vil criatura quer encher o céu de fumaça para que nunca mais nos vejamos. Quando a tivermos dominado, poderias atirar a salamandra na água?

— Acho que sim; não parece difícil.

— Ela poderá estar um pouco quente.

— Quente como? Nervosa, brava?

— Não, com a temperatura alta: ela solta fogo pela boca e pelo corpo.

Fogo?! Por que tinha que ser o que mais temia? Bem, já tinha aceitado. Preferiu não voltar atrás. Teria que pensar em algo no caminho.

A estrela, vendo que a garota parecia decidida, partiu voando para o local da explosão, mas logo percebeu que, por mais que corresse, a menina não podia acompanhá-la. Levantou então sua varinha, que emitiu três raios de luz para cima, um atrás do outro. Em um tubo de água vindo do local da explosão, veio outra fada azul e branca que logo foi se apresentando:

— Oi, menina linda! Eu sou a estrela Tecla e estou aqui para lhe dar uma caroninha. Preparada?

Em um rodopiar de varinha e um piscar de olhos, o tubo de água desceu até a menina e a sugou para dentro, levando-a escorregando até o centro da cidade.

Ao chegarem, viram que havia uma cratera no meio de um posto de gasolina e que tudo em volta pagava fogo. Tecla imediatamente partiu voando pela área, tirando pessoas de perto do fogo e da frente dos carros. Enquanto isso, Josiane apontava sua varinha para os focos de incêndio e os apagava com jatos de água, maravilhando a menina Maria.

A confusão diminuía na medida em que as fadas salvavam as pessoas e apagavam o fogo; era cada vez mais fácil para Maria procurar pela salamandra, mas, até agora, sem sinal dela.

De repente, os vidros do primeiro andar de um prédio próximo explodiram e chamas começaram a sair pelas janelas quebradas. Alguns segundos depois, o mesmo aconteceu com o segundo andar, e o terceiro. Maria viu uma terceira fada que, quando rodava sua varinha, criava um escudo de água, impedindo que os cacos de vidro que caíam por toda parte atingissem as pessoas que ainda estavam por perto.

“Esse fogo está subindo rápido demais pelo prédio! Será que é a salamandra?”, pensou Maria. Chamou, então, a atenção de Tecla para que lhe desse uma carona até o alto do prédio e para lá foram, subindo pelo tubo de água que agora fazia uma espiral ao redor da construção.

Até pousarem no topo do prédio, Maria ainda não tinha chegado perto demais de fogo algum para se desesperar, mas isso estava prestes a mudar. Em alguns segundos, derretendo a porta de ferro que dava acesso ao topo do prédio, chegou um lagarto alongado, preto e amarelo, com um brilho molhado como o de um sapo. Tecla confirmou que era a salamandra que tinha caído do céu e enviou os sinais por sua varinha para que as outras estrelas fossem até lá.

Abrindo a boca, a salamandra soltou um jato de fogo na direção de Tecla. Um instante antes que o jato a pegasse, a estrela Josiane apareceu e parou o ataque com um jato de água saindo de sua varinha. A salamandra e a estrela entraram em um combate de jatos, e aquele fogo voando por todo lado deixou Maria paralisada de medo.

A terceira fada se aproximou de Maria e, girando sua varinha, fez uma cúpula de água aparecer ao redor delas, protegendo-as e impedindo que a menina continuasse vendo o fogo.

— Calma — pediu a fada. — Está tudo bem. Eu sou Ester e vou lhe proteger.

— Mas e a Josiane e a Tecla? Aquele bicho é perigoso!

Enquanto falava, Maria ouviu um grito de dor. A fada Ester criou uma abertura no escudo na direção da voz e viu que Josiane estava com dificuldades de conter o jato de fogo da salamandra com seu jato de água; já estava com os braços queimados.

Ester deixou sumir a cúpula enquanto voava em auxílio de sua irmã. Outro grito de dor ainda mais forte enfureceu a garota que, sem pensar, saiu correndo na direção da salamandra. O tubo de água de Tecla tirou Maria de perto bem a tempo de protegê-la de uma explosão de fogo causada pela salamandra, que cessou o ataque a Josiane para se defender da menina que se aproximava.

Na explosão, a salamandra caiu do prédio, mas com fogo saindo de sua cauda e de suas patas, controlou a queda e rumava para o porto.

A garota estava um pouco chamuscada, enquanto a fada Josiane, agora deitada, parecia muito machucada. Ester chamou:

— Chiara! Já pode aparecer; a salamandra já foi!

A quarta e última estrela cadente, Chiara, também azul e branca, apareceu no topo do prédio, voando devagar e olhando para todos os lados, tremendo de medo. Porém, ao ver a irmã machucada, logo se apressou e estendeu sua varinha sobre ela, emitindo uma luz branca que, devagar, fechava os machucados de sua irmã Josiane.

Maria se alegrou por um instante, mas, ao longe, viu que o fogo no ar (a salamandra), se aproximava do porto (e do petroleiro!). Se o bicho pusesse fogo no navio, além do desastre na terra, o céu certamente ficaria bloqueado pela fumaça.

— Tecla, temos que ir AGORA! Se a salamandra atear fogo naquele navio, vocês não verão mais suas irmãs! — desesperou-se a menina.

Mesmo preocupada com a irmã, Tecla girou sua varinha no ar e criou o tubo de água que a levou, junto com Maria, até o porto.

Quando se preparavam para aterrisar, uma bola de fogo cuspida pela salamandra bateu de frente com o tubo, explodindo e mandando fada e menina em direções opostas.

O bicho, então, começou a atear fogo nas cargas que estavam pelo porto, fazendo as pessoas fugirem desesperadas. Os bombeiros entraram em ação, esguichando água por toda parte para apagar o fogo; um deles viu Maria caída e foi ver se a menina estava bem.

Mais machucada pela queda que pela explosão, já que o tubo de água foi capaz de oferecer alguma proteção, Maria disse que estava bem. Não teve tempo, entretanto, de mencionar a dor na perna: a salamandra, atingida pela água da mangueira, começou a atacar os bombeiros e o caminhão. A garota se escondeu do lado do caminhão oposto ao ataque, enquanto tentava encontrar as estrelas.

Tendo Chiara curado Josiane o suficiente para que recobrasse a consciência, Josiane e Ester viram o caminhão de bombeiros em chamas no porto e foram voando para lá. Chiara vinha atrás, mantendo distância por medo de ser atacada pela salamandra.

O lagarto acabava de pousar no petroleiro, depois de neutralizar os bombeiros, quando avistou as estrelas chegando. Sem demora, lançou um jato de chamas na direção delas.

Ester defendeu o jato com um escudo de água, enquanto Josiane se desviou e mandou de volta um jato de água que atingiu a salamandra em cheio.

O bicho começou, então, a ficar mais e mais quente, mudando até de cor para vermelho incandescente. Movendo-se muito rápido em cima do navio, deixava um rastro de fogo no convés, enquanto desviava dos ataques das fadas.

Avisadas anteriormente pela menina, as fadas faziam de tudo para apagar o fogo que se alastrava; conseguiram contê-lo por algum tempo, até que a salamandra atingiu Josiane e Ester com jatos de fogo que as empurrou para longe.

Sobrou apenas Chiara, que não ousava se aproximar mais, mas que emitia o brilho branco de sua varinha, mais fraco que o anterior por estar espalhando-o em muitas direções, porém suficiente para chamar a atenção da salamandra. Chiara viu o réptil virar o focinho na sua direção e fechou os olhos aterrorizada, imaginando que seria seu fim. Mas nada aconteceu. Criando coragem depois de alguns momentos, Chiara abriu os olhos e viu Maria descarregar um extintor de incêndio na criatura que ficou completamente branca e imóvel.

Maria pegou a salamandra, agora gelada, e mancando até a borda do navio, atirou-a no mar, caindo para trás em seguida, exausta.

O fogo do convés estava quase chegando até a menina, quando as fadas, reunidas por Chiara, começaram a apagar as chamas. Por sorte, o fogo não se alastrou navio adentro, ficando longe do óleo.

Quando Maria acordou, estava sendo curada por Chiara e todo o fogo já estava extinto no navio e no porto. Também viu que Ester tinha contido a salamandra em uma esfera de água e, quando se virou para Josiane, a fada lhe disse:

— Somos gratas a ti, menina. Agora podemos retornar para nossas irmãs. Gostarias de voltar à praia onde nos encontramos?

— Sim, por favor.

Voaram todas até a praia, com Tecla levando Maria em um tubo de água, e se despediram. Ao fazê-lo, as estrelas se transformaram em raios de luz e a salamandra, em uma bola de fogo, porém ainda contida na esfera de água, e subiram para o céu.

Maria correu de volta para casa. Sentiu um cheiro de fumaça quando ia chegando. Ao entrar na sala, viu a pilha de jornais de seu pai começando a pegar fogo. Correu e retirou a almofada de encosto do sofá e, batendo com ela, apagou o fogo (parece que o desejo de proteção da família tinha vindo junto do desejo de perder o medo de fogo).

Seus pais ouviram o barulho das almofadadas e vieram correndo:

— O que houve, filha? — perguntou a mãe.

— Os jornais do papai estavam pegando fogo! Eu apaguei com a almofada; desculpe se a chamusquei.

Os pais a abraçaram, dizendo que não tinha problema. Apenas mais tarde, no jantar, se deram conta de que a filha tinha perdido o medo do fogo e se alegraram com ela.

FIM


Lucas Dias Palhão Mendes, 2022

lucaspalhao.wordpress.com

Direitos de Cópia
Maria, as estrelas e a salamandra, por Lucas Dias Palhão Mendes. Todos os direitos reservados. © 2022 por Lucas Dias Palhão Mendes, Brasil. Esse documento é protegido por direitos de cópia. Nenhuma parte deste documento pode ser reproduzida em qualquer meio sem a permissão escrita do autor.


Curiosidades

Na primeira versão que escrevi, queria que todos os nomes fossem relacionados à Nossa Senhora, então as fadas se chamavam:

  • Marisa
  • Maristela
  • Marina
  • Mira

Com o nome da menina, Maria, imagine a confusão que não era para identificar cada uma na história!

Para ficar mais fácil, ainda busquei nomes relacionados com a Virgem Maria, mas com a letra inicial igual a de seus poderes, para ficar mais fácil de lembrar durante a leitura. Assim, os nomes ficaram:

Também busquei colocar algum simbolismo no número de estrelas na história. Referencio o Livro do Apocalipse, capítulo 12, versículo 4: “Sua cauda arrastou consigo uma terça parte das estrelas do céu, as quais arremessou sobre a terra”. Como a coroa de Nossa Senhora tem 12 estrelas, a terça parte seriam 4, que foram arremessadas na terra.

Em breve, versão revisada também disponível em PDF e em diversas plataformas de distribuição e venda de ebooks.

Um comentário sobre “Maria, as estrelas e a salamandra

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