Mariana, o gato e a correntinha de ouro

1a. edição

Era uma vez uma linda e bondosa menina que se chamava Mariana. Vivia em uma casa e, da sua janela, ela passou a ver um pobre menino que se sentava do outro lado da rua para pedir comida. Quando lhe davam algo, outro menino, mais velho, vinha e roubava dele. Mariana ficava triste e muito brava. “O que eu faço para ajudar?”, pensou ela.

Enquanto tentava planejar algo, um ratinho veio e parou, olhando para todos os lados, no parapeito da janela. Ela se assustou, mas sem conseguir parar de olhar para o bichinho, reparou que ele usava algo na cabeça. Mariana chegou mais perto e percebeu o que era: uma coroa!

“Eu nunca vi um rato de coroa antes!”

De repente, ouviu um miado alto. O ratinho se arrepiou todo e disparou! Logo atrás dele veio um gato azul.

“Um gato azul?! Que negócio é esse?”, pensou Mariana. “O ratinho vai precisar de ajuda!”

A menina saiu correndo atrás deles. Atravessaram o restante do bairro, no limite da cidade, e entraram em um bosque. Então, viu o rato e o gato entrarem em um buraco na base de uma árvore. Como não saíram depois de alguns segundos, ela resolveu entrar ali também. Rastejou para entrar no buraco, avançou por dentro dele e acabou saindo do outro lado da árvore.

Não conhecia aquela parte do bosque. Olhando por entre as árvores, finalmente viu o rato e o gato e voltou a persegui-los.

Quando saíram do meio das árvores, Mariana viu um castelo maravilhoso para onde correram o rato e o gato. Entraram pelos portões e foram direto para dentro da sala do trono. Correndo por lá, a menina teve impressão de ver outros ratos escondidos pelos cantos da sala, mas não teve tempo de se preocupar com eles ou perderia a chance de alcançar o rato de coroa.

O rato e o gato subiram lances e mais lances de escadas, com a menina correndo logo atrás, até que chegaram na parte de cima do castelo, a céu aberto. Cair dali de cima não seria nada divertido!

Por fim, o rato ficou encurralado e o gato azul se preparou para pular sobre ele. Mariana gritou para impedir o gato, mas ele saltou mesmo assim. Antes, porém, de chegar ao rato, o gato bateu em alguma coisa que não se via! Começou, então, a dar patadas no ar, até que Mariana viu uma correntinha brilhante voar e cair no chão perto do rato. Nesse instante, um gato vermelho apareceu brigando com o azul. Mariana entendeu: “O gato azul estava era protegendo o rato do gato vermelho!”.

Na confusão entre os gatos, o vermelho conseguiu empurrar o azul, que foi deslizando até cair da plataforma onde estavam. Agora o gato azul não poderia mais ajudar o ratinho! Mas Mariana podia: correu até o gato e, enquanto o bichano se preparava para pular, a menina o agarrou.

O gato, desesperado, se debatia e arranhava o ar com suas patas, até que acertou suas unhas bem na bochecha da garota. Com a dor do machucado, Mariana largou o gato, que logo saiu correndo para pegar o rato. O gato azul, que não tinha caído, apenas ficado pendurado, voltou e deu um encontrão no gato vermelho, que caiu lá de cima.

A menina, o gato azul e o rato foram até a beirada ver o que tinha acontecido ao gato vermelho, mas não o encontraram. Entretanto, lá embaixo estava um velho de barba e cabelos brancos, com um manto vermelho e um chapéu vermelho pontudo. O gato era, na verdade, um bruxo!

Mariana procurou o gato azul e o rato e também não os viu: no lugar deles havia uma linda rainha com um belo vestido azul e um rei de trajes azuis e com uma coroa igual à do rato, só que maior.

— Uau! — disse a menina.

A rainha foi até ela e disse:

— Obrigada, menina! Você nos salvou do feitiço do bruxo vermelho. Para tomar nosso reino, um dia ele apareceu por aqui e começou a transformar todos em ratos! Para defender nossos súditos, peguei meu espelho mágico e, o rei, sua espada encantada, e fomos enfrentá-lo. Ele foi mais rápido e transformou o rei em rato e, quando também tentou me enfeitiçar, consegui rebater parte do encantamento de volta para ele, o que transformou a nós dois em gatos. O bruxo, porém, tinha essa correntinha de ouro que o deixava invisível. Consegui finalmente arrancá-la dele na nossa luta aqui em cima do castelo logo antes de ele me empurrar. Por pouco não caí lá embaixo! Como agradecimento, queria que ficasse com a correntinha. Por nos ter salvo, sei que você é uma pessoa boa e que vai fazer bom uso dela.

— Nossa! Obrigada! — disse Mariana pegando a correntinha, que tinha um pingentinho de ouro em forma de olho.

— Qual o seu nome, menina? — perguntou a rainha.

— Mariana — disse, meio envergonhada.

— Vamos! Experimente! — pediu a rainha apontando para a correntinha.

A menina colocou a joia em volta do pescoço e… desapareceu! Depois, tirando a correntinha, ficou visível de novo. Mariana achou aquilo fenomenal, mas a joia a lembrou da correntinha que sua mãe tinha, causando um aperto no peito: tinha saudades de casa. Perguntou:

— Eu gostei muito, mas eu preciso voltar para minha casa. Vocês sabem o caminho, por favor?

— Sim, nós levamos você! — disseram o rei e a rainha juntos.

Desceram e desceram inúmeras escadas, passando agora por um castelo cheio de vida: muitos súditos comemoravam terem deixado a forma de ratos e cumprimentavam o rei, a rainha e a menina que passavam. Por fim, saíram do castelo e voltaram à árvore com o buraco na base.

— Lamentamos que a passagem não seja muito confortável, mas vai levar você de volta para o seu mundo — disse o rei.

— Obrigada! — respondeu animada e se despediu com uma mesura.

Passou rápido pela abertura e saiu no bosque do outro lado. Continuou correndo até entrar na cidade novamente e, finalmente, chegou em casa.

— Filha, o que é isso no seu rosto? — perguntou a mãe de Mariana, referindo-se ao machucado.

— Ah, um gato maleducado me arranhou, mãe…

— Vem cá; vamos cuidar disso.

A menina ganhou um curativo, um afago e um pedaço de bolo com leite. Então, voltou para sua janela, de onde ainda via o menino pedindo comida.

“Ah, essa correntinha vai ser muito útil!”, pensou Mariana.

Pegou um pedação do bolo, enrolou em guardanapos e colocou embaixo da camiseta. Depois, colocou a correntinha, ficando invisível. Saiu de casa, ficou ao lado do menino e cochichou:

— Não tenha medo. Eu vim trazer comida, mas eu sei que aquele menino vem roubar de você se vir. Vou colocar um pedaço de bolo atrás de você. Tire pedaços pequenos com as mãos para comer sem que ninguém veja.

O menino estranhou a voz vinda do nada, pois não enxergava a menina, mas a menção de comida o fez prestar atenção. Ele fez exatamente como Mariana disse e conseguiu comer tudo, enquanto ela observava de sua janela, já visível sem a correntinha.

“Mas como eu vou impedir que roubem a comida quando não for eu que der?”, pensou a menina. Depois de um tempo, percebeu que teria que afugentar o malvado mais velho.

Usando a mesma tática, levou outro pedaço de bolo para o menino. Mas dessa vez disse baixinho:

— Eu tive uma ideia. Coma sem esconder o bolo dessa vez. Preciso que atraia o menino mais velho, tá?

Sem dizer nada, o menino pegou o bolo que apareceu na sua frente e começou a comer. Ao ver o malvado se aproximando, Mariana foi até ele (usando a correntinha, claro) e gritou no ouvido dele:

— BU!

O menino mais velho deu um salto por causa do susto! Olhou para os lados ofegando e, como não viu ninguém tão perto, respirou fundo e continuou indo para o menino. Mariana então deu um peteleco na orelha dele.

— Aaaah! O que que é isso? — assustou-se mais uma vez o malvado. Levou a mão ao coração e acalmou a respiração antes de tentar pegar o bolo novamente. Quando se abaixou, Mariana puxou a borda de baixo da camiseta dele por trás. O menino se desequilibrou e caiu de costas.

Mariana e o menino com a comida começaram a rir, o que deixou o malvado furioso. Estava tão concentrado em pegar o pedaço de bolo que pisou somente com a metade do pé no meio-fio e acabou caindo na rua. Carros frearam para não atropelá-lo e começou um buzinaço, o que finalmente espantou o menino mais velho dali.

A menina, ainda invisível, foi embora e apenas em seu quarto tirou a correntinha para reaparecer. Por alguns dias continuou observando o pobre menino de sua janela, levando algo para ele comer sempre que podia, mas já não era preciso: muita gente dava a ele de comer, agora que não o roubavam.

E, no final daquela semana, o menino não apareceu mais. Mariana ficou sabendo que ele tinha sido adotado por um casal que não podia gerar filhos. Enfim, ele tinha um lar.

Mariana sorriu.

FIM


Lucas Dias Palhão Mendes, 2022

lucaspalhao.wordpress.com

Direitos de Cópia
Mariana, o gato e a correntinha de ouro, por Lucas Dias Palhão Mendes. Todos os direitos reservados. © 2022 por Lucas Dias Palhão Mendes, Brasil. Esse documento é protegido por direitos de cópia. Nenhuma parte deste documento pode ser reproduzida em qualquer meio sem a permissão escrita do autor.


Curiosidades:

Antes de escrever, eu estava contando a história para meu filho mais velho, até que apareceu o primeiro gato e eu ainda não tinha uma cor para ele:

— Então, apareceu um gato… hm, de que cor? Marrom?

— Não, azul! — respondeu meu filho.

— Tá bom! Então o gato era azul.

Depois, apareceu o outro gato.

— E de que cor era esse gato?

— Azul!

— De novo? Mas eu preciso que tenha outra cor para diferenciar os dois!

— Ah, então vai vermelho.

E assim foram decididas as cores dos gatos nesse conto 🙂

Em breve, versão revisada também disponível em PDF e em diversas plataformas de distribuição e venda de ebooks.

2 comentários sobre “Mariana, o gato e a correntinha de ouro

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