[TRADUÇÃO] Uma habilidade grátis: como usar as técnicas de escrita que você domina para aprender as que não domina

Esta é uma publicação (originalmente em inglês) da editora Tor.com disponível em

https://www.tor.com/2019/03/25/one-free-trick-how-to-use-the-writing-skills-you-have-to-learn-the-ones-you-dont/?utm_source=exacttarget&utm_medium=newsletter&utm_term=tordotcom-tordotcomnewsletter&utm_content=na-readblog-blogpost&utm_campaign=tor&e=95c06efbdb88844690b998f9c6f09f57506aa97c8558394bbc347a79fe9df86d

Na sequência, veja minha tradução do texto de Arkady Martine.


Quando eu fui para a oficina de escritores Viable Paradise no distante ano de 2013, a inestimável Elizabeth Bear, com várias outras pessoas mais inteligentes que eu, explicaram que um escritor consegue algumas habilidades de graça. Elas são as cartas de habilidade de escrita que você recebeu na sua primeira mão de pôquer.

A magia dessa ideia é que isso é garantido: todo mundo recebe alguma coisa. Cada escritor, não importa quão inexperiente, tem pelo menos uma coisa em que é bom para começar. Pode ser personagemritmo de prosa, ou ritmo de trama. Ou as instruções da Máquina de Trama. (As pessoas que ganham as instruções da Máquina de Trama são muito sortudas, e eu as odeio com profunda inveja. Minhas instruções para a Máquina de Trama eram incompletas e feitas de homenzinhos de manuais de instrução chineses, alegremente gesticulando para uma pilha de peças incompreensíveis.)

Sua habilidade grátis é aquela que você pode usar como base. Você pode recorrer a ela enquanto aprende o restante da arte de ser um escritor. Pensar sobre a escrita dessa forma — como um conjunto de habilidades interligadas, algumas das quais você ganha, outras das quais você precisa desenvolver — mudou completamente a forma com que eu abordo projetos novos e difíceis. De uma certa forma, esse conceito me ajudou a aprender como escrever um livro.

Livros são, para aqueles que não sabem, difíceis pra caramba de se escrever. Especialmente se você era, como eu, uma pessoa que só escrevia contos, feliz da vida, e com algum sucesso, antes de saltar do trampolim para dentro das narrativas longas. Escrever livros é difícil por vários motivos. David Hartwell disse que “um livro é um trabalho de ficção maior que um conto, e imperfeito”, ou pelo menos isso é o que entendi do que ele disse. Mas, para mim, a parte mais difícil era a quantidade de palavras. Acredite: um livro é muito longo. O ritmo é completamente diferente do de um conto. Você pode escrever mil palavras, ou duas mil palavras, e ainda ter tanto a percorrer que todo esse trabalho é apenas uma gota no vasto e impiedoso oceano de um livro. Quando eu comecei a escrever A Memory Called Empire [Uma Memória Chamada Império] de verdade, eu nem senti que estava dando um grande salto para o desconhecido de um novo formato: era mais como uma marcha lenta para o desconhecido, onde cada passo requeria um ato individual de autopropulsão. Eu tive que descobrir um novo jeito de pensar sobre escrita, um que não me fizesse sentir tão travada, tão desanimada, enquanto eu aprendia uma habilidade que eu não tinha: a de escrever um trabalho de ficção maior que um conto.

Eu comecei pensando se aprendia a escrever com a prática, assim como aprender uma língua, ou yoga, ou escalada. Algo feito repetidamente, que se torna uma exploração sequencial e evolutiva. Porque claramente eu estava trabalhando em como escrever um livro. Essa é a parte da minha prática que eu estou ativamente tentando desenvolver. E eu lembrei da promessa da habilidade grátis: existem habilidades que consegui de graça, e outras que eu tinha que aprender. E se eu me apoiasse nas que havia ganhado, eu poderia seguir em frente enquanto aprendia uma nova.

Pelos meus pecados, minha habilidade grátis é cenário.

Perceba que cenário não é a pior habilidade grátis para um escritor de ficção científica e fantasia. Você quer suas invenções malucas descritas coerentemente e como se o leitor as visse em sua mente? Eu tenho hectares de coisas estranhas para te vender: aqui está uma cidade feita de sal; aqui está um anjo sem língua e sem olhos na forma de um atendente de quiosque; aqui está a primeira Cruzada fora de Acre (Israel); você gostaria de uma amostra grátis de uma espaçonave que usa ácidos corrosivos de alta tensão de superfície como uma arma de gravidade zero? E de cenário eu rapidamente aprendi tema: a habilidade “sobre o quê fala esta história”. (Para mim, como foram as primeiras duas habilidades que dominei, elas estão intimamente ligadas: o funcionamento do cenário traz o conjunto de metáforas, registro de prosa e imagens que reforçam o tema, além de delimitar as possíveis questões “sobre o quê é essa história” a um conjunto menor.) Claro, isso significa que a maior parte dos meus primeiros trabalhos eram criações de mundos simbólicas e descritas mais que o necessário, mesmo que fossem capazes de fazer o leitor enxergar o cenário. (Eu melhorei.) Depois de alguns anos escrevendo contos e fanfic, eu adquiri um punhado de ferramentas de prosa e personagens com pura prática.

Mas nada disso ia me salvar ao escrever um livro, com seus desafios de ritmo, desafios de resistência e desafios de trama. Uma porção de coisas acontecem em um livro. Uma depois da outra. Todos aqueles eventos. E todos eles têm que ser os eventos certos para levarem a história em direção ao final tematicamente apropriado, o qual… ai… tão difícil. Mesmo que eu assine com a rubrica “trama = personagens + situação + problema”, geralmente vejo que ter situaçãopersonagem por onde começar, e determinação o suficiente para arrancar deles problema, o que me dá uma questão temática para a história e algumas ideias para o fim, continua horrendamente difícil para mim transformar problema em eventos em sequência. E, com certeza, você precisa disso em um livro.

Então eu recorri às minhas habilidades grátis. Como eu poderia usar cenáriotema para me impulsionar enquanto eu aprendia a habilidade livro? Primeiro, eu fiz algumas escolhas conservadoras (no sentido de não correr riscos) quanto a que tipo de livro eu ia escrever. Por exemplo, decidi trabalhar no contexto cultural no qual me sinto mais capaz e confortável (inspirada pelo período médio da cultura bizantina literária, só que NO ESPAÇO!) com tipos de personagens que eu sabia que podia representar bem (poetas-diplomatas são uma especialidade minha) e questões temáticas que eu acho altamente energizantes e prazerosas de se explorarem (preservação de memórias, imperialismo e a mente colonizada, singularidade da identidade).

Eu me permiti escolher coisas para esse livro que não são difíceis para mim, que fazem bom uso dos meus pontos fortes. Há uma tonelada de descrições visuais exuberantes nesse livro: construções e roupas e itens culinários únicos, tudo com enorme peso simbólico; porque amo essas coisas e sou boa nisso. E, então, transformei os visuais exuberantes em partes com importância no livro. Com peso para a trama. Eu até mesmo usei minhas habilidades grátis para me salvar de bloqueios em transições de cenas das quais eu havia dado um tempo: eu descrevia, com detalhes e precisão, um daqueles importantes elementos visuais simbólicos do cenário, mas eu o fazia do ponto de vista do meu personagem, com suas impressões e entendimento do que via. Em algum momento eu estava vendo por que meu protagonista estaria olhando tão atentamente para alguma coisa. E eu estava na cena, profundamente na voz do personagem e tinha feito algum trabalho temático para manter a história andando.

Sua habilidade grátis pode ser diferente da minha. Mas o princípio é o mesmo: se você tem personagem, use seus personagens para movimentar sua trama e seu cenário. Se você tem estrutura e ritmo, construa um andaime com uma estrutura interessante para apoiar o trabalho do seu personagem. (Eu acho que o pessoal de estrutura planeja um bocado. Esse pessoal é gente boa.) Sua habilidade grátis é seu porto seguro. É o que você usa para te impulsionar pelo longo e difícil processo de aprender algo novo; de trabalhar para conseguir as cartas que você não tirou na sua mão inicial de habilidades de escrita; de tratar a escrita como algo que se aprende com a prática.

 

Arkady Martine escreve ficção especulativa quando não está escrevendo história bizantina. Ela curte fronteiras, retórica e limites entre estados de existência. Seu livro A Memory Called Empire foi publicado em 26 de março pela Tor Books. Encontre-a no Twitter em @ArkadyMartine.

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