Justaposição de uma Interpretação de René Descartes e Máquinas Autorreplicantes

Recentemente, comecei a estudar o livro Introduction to Artificial Intelligence (2ª ed.) de Phillip C. Jackson Jr. e, no final do primeiro capítulo ele faz uma proposta que achei interessante: Leia Descartes e veja se você pode determinar se ele acha que máquinas podem reproduzir a si mesmas. Decidi tentar e, para isso, consegui, de graça na Kindle Store, o livro A Discourse of a Method for the Well Guiding of Reason and the Discovery of Truth in the Sciences de René Descartes.

Assim, da passagem de Descartes traduzida no Apêndice A, o filósofo afirma que se fosse possível construir uma máquina que se assemelhasse a um humano, ela não seria capaz de se fazer passar por um de nós. Isso porque, conforme Descartes, elas poderiam reagir apenas conforme as capacidades que lhes foram dadas pela sua estrutura e não seria possível que um humano construísse uma estrutura tão bem elaborada quanto a própria. Apesar disso, diz que seria possível que essas máquinas se saíssem melhor que uma pessoa em alguma atividade, mas não em tudo que um ser humano é capaz de fazer. Assim, é possível inferir que Descartes pensaria ser possível conceber uma máquina capaz de construir outra. É possível que a primeira fosse capaz de ser mais eficiente que um humano na construção de outra, desde que fosse constituída de uma estrutura para esse propósito.

Concluindo, Descartes acreditaria que seria possível que uma máquina construísse outra, mas apenas se fosse construída para isso. Isso não significa que o filósofo acharia que as máquinas teriam consciência do que estavam fazendo. Conforme seu trecho traduzido no Apêndice A, essas máquinas não seriam capazes de organizar ideias para formar um discurso coerente, nem mesmo entender o que se passa à sua volta, como um humano é capaz de fazer. Então, resumindo, René Descartes acreditaria na existência de máquinas autorreplicantes, mas não em inteligências artificiais.

Apêndice A

Tradução de trecho da obra A Discourse of a Method for the Well Guiding of Reason and the Discovery of Truth in the Sciences de René Descartes, na página 44.

(…) entretanto, se houvesse algo que fosse semelhante a nossos corpos, e que imitasse nossas ações até onde fosse moralmente possível, deveríamos ter duas maneiras certas de saber que não se tratam de pessoas: A primeira é que não poderiam fazer uso da fala, nem dos outros sinais que a envolvem, como nós o fazemos, para declarar nossos pensamentos para outros. Uma vez que podemos conceber que uma máquina possa ser feita com capacidade de pronunciar palavras, e até algumas ações corporais próprias, que pode causar uma mudança em seus órgãos; que se a tocássemos em alguma parte, ela perguntasse o que diríamos; ou tal que possa chorar caso alguém a machuque, e coisas do tipo. Porém, ela ainda não poderia diversificar o suficiente para responder com sensibilidade a tudo que fosse dito em sua presença, como um homem desinteressante pudesse fazer. E a segunda maneira é, apesar de ser capaz de fazer algo tão bem ou melhor do que podemos,  que eles devem sempre falhar em outras, de onde se pode descobrir que não agem com inteligência mas, unicamente, pela disposição de seus órgãos. Apesar de a Razão ser um instrumento universal que pode servir em qualquer situação, esses órgãos precisam de determinada disposição para realizar cada ação particular: é moralmente impossível que uma Máquina tenha órgãos suficientes para realizar todas as ocorrências desta vida, do mesmo modo que a Razão nos move. Então, dessas duas maneiras, podemos saber a diferença entre Homens e Bestas: porque é uma coisa notável que não haja homem tão desinteressado e tão estúpido, exceto aqueles que estão fora de sua sanidade mas são capazes de agrupar algumas palavras, e delas compor um Discurso, pelo qual fazem saber seus pensamentos. E ainda, que do contrário não há outra criatura tão perfeita ou felizmente trazida à vida que possa fazê-lo.

Referências

JACKSON JR., Phillip C. Introduction to Artificial Intelligence. 2ª ed. Nova Iorque: Dover Publications, Inc., 1985

DESCARTES, René. A Discourse of a Method for the Well Guiding of Reason and the Discovery of Truth in the Sciences. Londres: Thomas Newcombe, 1649.

Anúncios

Um comentário sobre “Justaposição de uma Interpretação de René Descartes e Máquinas Autorreplicantes

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s